O herói que merecemos
Num país que transforma futebol em identidade nacional, Cristiano Ronaldo emerge como herói entre crianças e adultos. Quantos golos são precisos para fazer um herói?
É dia de jogo e largas dezenas de adultos aglomeram-se em torno de um ecrã mais pequeno do que deveria. Alguns vão vestidos de verde e vermelho, uns poucos vão de cara pintada, mas vão todos prontos para viver uma partida de futebol como se do resultado dependesse o sucesso do país.
À volta, uma não menos impressionante quantidade de crianças brinca ligando muito pouco ao ecrã, mas essencialmente contente por estar ali em dia de semana como se não houvesse aulas no dia seguinte. Na sua esmagadora maioria envergam equipamentos da seleção. Uns verdes e vermelhos, outros azulados a imitar tijolo mas quase todos com um número, o 7, e um nome, Cristiano Ronaldo.
Ensaiam imitações da celebração que o jogador faz quando marca um golo: um salto meio à toureiro com um grito que ninguém sabe muito bem o que quer dizer. Ou se calhar sou só eu. As crianças idolatram Ronaldo. Nasceram num mundo que idolatra Ronaldo, aprenderam que idolatrá-lo é uma coisa que se deve fazer e, na escola, competem para ver quem o idolatra mais, quem o imita melhor.
Entre 2011 e 2014, Cristiano Ronaldo ganhou cerca de 100 milhões de euros por ano e acabou em tribunal por fugir ao fisco espanhol em quase seis milhões de euros. Se calhar porque os seus magros rendimentos não chegavam para pagar os serviços de alguém que soubesse da poda, os advogados do número 7 alegaram que ele não sabia muito bem como é que funcionava a lei espanhola.
Em 2018, o jornal alemão Der Spiegel pôs as mãos num documento confidencial no qual Ronaldo explicava aos seus advogados o que se passou na noite em que alegadamente violou Kathryn Mayorga. De acordo com o jornal espanhol, o documento indica claramente que o jogador português teve relações sexuais com Mayorga apesar de ela repetidamente dizer “não” e “pára”. Não foi essa a versão que os advogados fizeram mais tarde chegar a tribunal e, ao Der Spiegel, disseram apenas que havia partes do documento em causa que tinham sido inventadas.
Mayorga tinha sido paga por Ronaldo para não colaborar com a polícia e para que o caso nunca chegasse à justiça. Mas chegou e acabou por ser arquivado quando o advogado da queixosa usou documentos obtidos ilegalmente através de fugas de informação. Mal servida pelo advogado e nas bocas do mundo colada a qualificativos de “puta” para baixo, Kathryn Mayorga acabou por desvanecer para o esquecimento enquanto que Cristiano Ronaldo seguiu a sua vida.
Anos mais tarde serviria de pseudo-embaixador da Arábia Saudita branqueando a natureza sanguinária do regime e promovendo a sua imagem no palco internacional em troca de um pouco mais do que 30 moedas de prata.
Não ligo a futebol e confesso que o festival de provincianismo emocional-nacionalista com que somos presenteados de cada vez que há torneios internacionais me causa um grande incómodo. Mas este é um fenómeno difícil de escapar. É por isso que não consigo deixar de me perguntar exatamente o que é que se celebra quando se celebra CR7?
O dinheiro dos impostos de todos paga escolas, hospitais, ordenados, serviços públicos. Que conclusões devemos então retirar de alguém que, recebendo mais milhões do que algum humano possa precisar, mesmo assim evita pagar seis milhões de euros. Mesmo dando de barato que estava convencido da legalidade do que fazia, num contexto de 100 milhões anuais, o que é que isto nos diz desta pessoa?
Que conclusões devemos retirar de alguém que, para agradar ao regime do país onde, por opção, trabalha, escolhe tomar parte de campanhas de marketing político para normalizar um regime tão brutal como o da Arábia Saudita?
Mas há uma pergunta mais importante do que estas. Que conclusões deve uma rapariga ou uma mulher retirar da idolatria absurda em torno de uma pessoa sobre quem recaem suspeitas tão graves? Quantas vezes irão pensar se algum dia se virem na situação de querer denunciar um homem poderoso?
Deixo aqui fora da equação as diversas situações que tenho ideia de ver em que o Capitão mostrou, no mínimo, uma incrível imaturidade, mas muito provavelmente uma visão do mundo absolutamente autocentrada em que o seu ego é personagem principal e única. Não sigo as lides futebolísticas com atenção suficiente para isso.
Mas, mesmo não as seguindo, é em alturas de campeonatos mundiais ou europeus que as televisões se enchem de anúncios com músicas emotivas e palavras a puxar ao orgulho patrioteiro tentando navegar a onda da seleção nacional. Entramos numa espécie de concurso em que marcas e canais se desunham para se mostrarem mais patrióticos, mais orgulhosos da seleção.
Somos inundados por uma enxurrada que não nos permite ver as coisas pelo que elas são: um torneio desportivo sénior entre nações. E nos últimos largos anos, aqui em Portugal, essa enxurrada teve uma figura absolutamente central: Cristiano Ronaldo.
Não quero com isto dizer que Ronaldo é culpado de violar Kathryn Mayorga. Não estava lá, mas tenho uma convicção baseada na informação disponível. Mas entre manter uma certa dose cepticismo próprio de uma democrática presunção de inocência e erguer-lhe estátuas literais, vai uma grande distância.
Cristiano Ronaldo saiu de uma situação de pobreza por se ter conseguido tornar num grande jogador de futebol. A sua omnipresença ofusca os milhares de pequenos CR7 em potência que nunca chegaram, sequer, a uma equipa principal. Portugal tem um herói. É um herói que marcou muitos golos e fez muito dinheiro. Mas se calhar cada país tem o herói que merece.





Conheço quem condene fervorosamente as práticas de que o CR7 está acusado e, ainda assim, ande pela rua alegre e contente com uma camisola com o seu nome e número nas costas. O futebol tem um lado bonito de mexer com as massas, mas parece ter também um lado muito feio que afeta outra massa: a cinzenta.
Já não para não falar do clássico " CR7 fez muito por este país". Penso sempre se esse "muito" são escolas, hospitais, habitação acessível, etc... Não faz sentido jogadores de futebol ganharem milhões por mês quando o comum mortal nem numa vida inteira o ganhará